Agrotóxicos, o problema é ainda maior do que parece

 

Em solidariedade à pesquisadora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) Larrissa Mies Bombardi, que publicou em 2019 seu atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia” e que, por estar sofrendo ameaças e perseguições por conta disso, está se exilando fora do país, publicamos aqui um trecho do livro “Pragas, agrotóxicos e a crise ambiente, de Adilson Paschoal, professor Sênior do Departamento de Entomologia e Acarologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, USP.

“No Brasil, embora pouquíssimos dados concretos existam sobre os efeitos colaterais dos agrotóxicos, já se sabe que em linhas gerais eles causam os mesmos problemas observados em outros países.

Há uma diferença, porém, que tem escapado à observação dos pesquisadores, principalmente porque o número de ecologistas e de estudos ecológicos nos trópicos e subtrópicos é deveras escasso: a intensidade desses efeitos deve ser muito mais acentuada nas condições de baixa latitude do que nas condições de clima temperado e ártico.

Como importadores que somos de tecnologia de países desenvolvidos temperados, caímos no erro gravíssimo de ignorar a verdade ecológica de que nos ecossistemas tropicais (e certamente mesmo nos agroecossistemas) a diversidade de espécies e, consequentemente, as interações entre os vários níveis tróficos das teias alimentares é muito maior do que nos ecossistemas de clima temperado. Isso sugere uma maior importância dos fatores bióticos naturais (competidores, inimigos naturais e patógenos) na estabilidade das populações das espécies animais e vegetais.

Esquecemos, ainda, que nas condições tropicais a uniformidade climática permite o desenvolvimento de maior número de gerações de uma espécie por ano, ao contrário do que acontece nas outras regiões onde invernos rigorosos limitam esse número. Desequilíbrios biológicos e resistências a produtos químicos, entre outros, e erupções de pragas devem, pois, ser muito mais frequentes e problemáticos nos trópicos, devido ao uso continuado e indiscriminado dos agrotóxicos.

As quantidades excessivas de produtos químicos usadas para combater pragas resistentes ou novas pragas agravam sobremaneira as condições ambientais, com total poluição dos meios de subsistência (água, ar, solo, alimentos) e destruição da flora e fauna.”

*Na foto, estão o Prof. Adilson Paschoal e a Profa. Ana Maria Primavesi, dois gigantes e pioneiros da pesquisa científica da agroecologia no Brasil – foto e trecho extraídos da postagem do Instagram de Ana Maria Primavesi

 

Para entender mais a história:

https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2021/03/apos-intimidacoes-por-luta-contra-agrotoxicos-colunista-da-radio-brasil-atual-decide-deixar-o-pais/

https://www.redebrasilatual.com.br/saude-e-ciencia/2021/03/pesquisas-de-larissa-bombardi-veneno-exilio/?fbclid=IwAR34hbHLlOwueVuPGhs0nhViu_2kxxDbZ8hWnv5cTcQTN6wM5t82WCd8JLo